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Teoria de Tudo [Resenha]

fevereiro 19, 2015
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Texto também publicado no Simetria de Gauge

Não contém spoilers se você já sabe pelo menos o grosso sobre a vida dele. Se você não sabe nem quem é Hawking, não sei nem se você vai querer ver o filme.

Hoje assisti ao filme Teoria de Tudo, que conta a história do físico Stephen Hawking. Achei conveniente aproveitar o momento e dizer o que achei. No geral, positivo. No entanto há um pequeno ponto que achei que poderia ter sido diferente.

O filme foca no relacionamento entre Hawking e sua primeira esposa, Jane. Como drama, na minha opinião foca mais na força de Jane ao enfrentar com ele a doença degenerativa. A parte da física é deixada em segundo plano. Cheguei a ver alguns comentários na internet de pessoas reclamando disso. A esses eu digo: se quiser aprender relatividade, compre um livro. Não ache que numa biografia você vai sair sabendo sobre buracos negros.

De volta ao filme. É um filme bonito. A história de vida do cara, com ou sem o filme, é um exemplo de garra e superação. Um sujeito que com vinte e poucos anos descobriu que teria pouquíssimo tempo de vida mas já passou dos setenta, sem deixar de trabalhar e dar grandes contribuições para a física e para a divulgação científica – muitos físicos de hoje devem o interesse no assunto a seus livros. Então é natural que contar essa história, bela por si só, com o poder da telona dá um efeito excelente.

Quanto às relações entre pessoas, sem spoilers, apenas digo que o filme retrata um desenrolar sem vilões ou mocinhos, simplesmente pessoas, com forças e fraquezas. Isso também é legal de se ver. Talvez alguém que viu o filme diga: “ah Daniel, mas aposto que ele era meio babaca, e o filme amenizou. Filmes sempre fazem isso!” ok, pode ser. Mas, é cinema, né? Tolera-se um pouco de “liberdade poética”.

Finalmente vou ao ponto que acho poderia ter sido melhor trabalhado: o filme reforça o estereótipo dos físicos como sujeitos bizarros e da física como um assunto de doidos. Ok, o Hawking possivelmente era já meio esquisitão. Mas não acredito que ele pensava em física o tempo todo, como o filme retrata. Liberdade poética também, ok. E de fato, fica interessante. Mas talvez por eu me preocupar tanto com a imagem que as pessoas tem da ciência, eu fiquei levemente com uma pulga atrás da orelha.

Mas o pior para mim não foi nem o Hawking-Nerdão. Até que foi divertido. Meu problema maior foi como o filme relata a maneira com que teorias físicas são desenvolvidas. Um insight, uma palestra falada (sem nenhuma equação) para um grupo de professores e pronto, você é reconhecido como um super gênio. É verdade que há referências no filme aos cálculos matemáticos como um elemento da física, mas ainda assim me passou a ideia de ser algo secundário. A física parece acontecer primeiro em mesas de boteco, para depois, só por conveniência, ganhar uma roupinha matemática.

Não gosto dessa visão porque isso, na minha opinião de quem já viu muita gente com ideias bem tortas sobre ciência, fortalece a ideia que qualquer um pode formular uma teoria revolucionária sem nenhum esforço apenas olhando para uma xícara de café ou uma lareira. É bom para a dramaticidade, não é tão bom para entender como a ciência funciona. Chega a fazer o contrário. As pessoas que vão pela biografia acabam saindo de lá achando que é assim que a física acontece.

Mas ei, como eu disse, esse não era o objetivo do filme, discutir ciência. Então dou um desconto. Mas acho, só acho, que eles poderiam ter aproveitado a oportunidade para acertar dois cajados com um coelho só.

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  1. fevereiro 20, 2015 8:59 pm

    Olá. Belo artigo. Concordo que as explicações esmiuçando teorias da física, neste caso, não poderiam ser priorizadas, sob pena de comprometer a leveza, o romantismo, e a compreensão do grande público sobre a vida deste brilhante astrofísico. Também entendo sua insatisfação com o reforço da imagem errada sobre como uma teoria surge na mente dos cientistas. Mas gostaria de comentar sobre duas coisas aqui:

    1) A atuação do ator Eddi Redmayne: simplesmente fantástica!. Muito parecido, até nas posições quando o físico já estava em cadeira de rodas, e também no sorriso “torto”. Uma verdadeira aula de interpretação. Acho que ele merece o Oscar.

    2) A cena com a resposta em que perguntam:

    “Prof. Hawking. O senhor declarou não acreditar em Deus. O senhor tem alguma filosofia de vida que o ajuda?”

    E a resposta dele, simplesmente arrepiante:

    “É claro que somos apenas primatas evoluídos, vivendo em um planeta pequeno que orbita uma estrela comum, localizada no subúrbio de uma de bilhões de galáxias, mas desde o começo da civilização as pessoas tentam entender a ordem fundamental do mundo.
    Deve haver algo muito especial sobre os limites do universo, e o que pode ser mais especial do que não haver limites?
    Não deve haver limites para o esforço humano.
    Somos todos diferentes.
    Por pior que a vida possa parecer, sempre há algo que podemos fazer em que podemos obter sucesso.
    Enquanto houver vida, haverá esperança.”

    Fiquei com vontade de levantar e aplaudir no cinema.

    Está claro que se tivéssemos continuado a jogar para Deus o motivo da maioria das coisas, talvez ainda estaríamos achando que o sol gira em torno da Terra, e morrendo de doenças atribuídas às bruxas.

    Mais uma para que eu admire ainda mais este gênio.

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