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[Resenha] The Day Without Yesterday – John Farrell

outubro 23, 2013
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Terminei ontem de ler o livro “The Day Without Yesterday“. O livro, escrito por John Farrell, jornalista contribuidor de diversas revistas de divulgação e seções de ciência de jornais importantes, consegue combinar de forma muito gostosa a biografia do Físico e Matemático Georges Lemaître e divulgação científica na área de relatividade e principalmente cosmologia. Infelizmente, até onde sei, não existe tradução em português do livro.

Já adianto que eu não sou historiador de ciência, nem cosmólogo. Sei o básico de cosmologia aprendido durante minha graduação e pós, e conheço a história da ciência a um nível wikipediano. Então não esperem que eu já estivesse por dentro das nuâncias do livro. De fato, se eu já soubesse sobre o assunto, eu possivelmente não leria o livro em primeiro lugar. Mas posso dar a minha opinião como físico pesquisador de uma área não muito distante.

Diversas coisas me chamaram a atenção durante a leitura. Primeiro, o autor consegue combinar os méritos individuais de grandes nomes, sem deixar de lado o caráter colaborativo da ciência. Consegue louvar um cientista sem necessariamente atribuir um caráter de gênio a ele (como alguns sabem, sou da opinião de que essa mistificação de cientistas acaba por contribuir negativamente para a forma com que ciência é vista pela sociedade).

Segundo, ele nos apresenta uma visão pouco divulgada de Lemaître. Em primeiro lugar, sua extrema importância na cosmologia, na contribuição para a identificação de evidências do Big-Bang, e até sua grande colaboração para a compreensão da física de buracos-negros (coisa que eu nem tinha ideia). Em segundo lugar, sua relação com a física enquanto clérigo. Ao contrário do que nos é frequentemente apresentado, o autor nos mostra Lemaître sendo do tipo que sabia separar as coisas. Não só ele era cauteloso ao evitar implicações teológicas ou filosóficas em seus trabalhos, como ele era crítico a quem fazia essas implicações (como por exemplo quando o Papa Pio XII fez tal menção, incomodando profundamente Lemaître).

Importante enfatizar que eu mesmo já mencionei várias vezes que a hoje abandonada teoria do átomo primordial (o suposto estado frio do universo antes do início da expansão) teria sido proposta por Lemaître como uma consequência de sua crença em uma criação divina. O autor conseguiu me convencer do contrário, ao apresentar cartas, textos e outros argumentos de que a fé na criação não teve papel.

Amigos mais radicais quanto à relação entre ciência e religião podem dizer que o livro se apresenta muito amigável para a religião, dando a entender que não existe (ou não deveria existir) um conflito entre as duas coisas, por simplesmente se ocuparem de perguntas diferentes. De fato, essa posição conciliatória do livro é criticada no EvolutionBlog. Já eu, embora possa ser até considerado um ateu radical, não acho que exista problema num cientista que possua alguma fé quanto a questões fora do escopo da ciência.

Como último ponto que destaco, o livro chama atenção em diversos momentos para uma visão mais dinâmica e menos linear da ciência. Por exemplo, cito o trecho (tradução por minha conta):

Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade são representadas como terremotos que devastaram uma geração presunçosa de físicos, cegamente atrelados à mecânica determinística de Newton. Mas essa visão é simplista. De fato, longe de estarem amarrados ao puro determinismo, cientistas do fim do século XIX já estavam questionando as bases filosóficas da mecânica. Se guiando pelo poder das recentemente descobertas disciplinas da termodinâmica e eletrodinâmica, muitos cientistas consideraram, por exemplo, se de fato existia algo como a matéria na analogia de bola-de-bilhar que eles foram ensinados, ou se os blocos fundamentais do universo, como os átomos, eram somente uma ilusão, um epifenômeno de uma realidade física mais profunda (algo que teóricos de cordas estão pesquisando hoje).

Tendemos a tentar simplificar qualquer progresso. Separar em grandes marcos, que quebram completamente as eras antes e depois deles. Mas os empreendimentos humanos não são assim (na verdade, nem os desenvolvimentos naturais são assim).

Quem gosta de curiosidades históricas de ciência, acho que esse livro não pode faltar na coleção.

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2 Comentários leave one →
  1. 21eliane permalink
    outubro 24, 2013 12:06 pm

    Valeu a dica! anotado pra ler (e pra exercitar o inglês! ótimo!)
    Abraços,

Trackbacks

  1. [Resenha] The Day Without Yesterday – John Farrell | Biologia na Web

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