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Síndrome de Faustão e a Ciência

outubro 15, 2013
by

ou

Recado a Jornalistas

Nesta semana assisti a uma entrevista no canal Band com o físico de partículas Rogério Rosenfeld, do Instituto de Física Teórica da UNESP. Mais uma vez, o Luc Andersen salvou o dia ao colocar rapidamente o vídeo online:

Parte 1    Parte 2    Parte 3    Parte 4

Primeiro, fiquei extremamente feliz de ver esse assunto ser discutido num canal de grande audiência como a Band, e convidando alguém sério para falar sobre. Mas o que quero comentar aqui neste texto não é o conteúdo científico da entrevista, mas a atitude dos jornalistas. Não é a primeira vez que vejo isso. E com certeza não será a última.

Ao longo de toda a entrevista, vemos a seguinte estrutura se repetir:

– [Pergunta do Jornalista]

– [Rogério percebe que a pergunta precisa de uma introdução antes, algumas informações para que a resposta possa ser entendida. Ele começa a dar essa introdução…]

– [Jornalista interrompe, mudando de assunto. Pergunta principal não é respondida, e nem a introdução é concluída.]

Eu sei que vocês, jornalistas, tem um prazo a cumprir. Eu sei que o programa é somente de uma hora, e não pode passar disso. Eu sei que vocês estão acostumados com respostas rápidas, empacotadas. Mas desculpe, ciência não tem como ser assim. Achar que a pergunta “quando o Higgs será provado?” terá uma resposta tão curta quanto a resposta de um prefeito a “quando o hospital será construído?” é ingenuidade. Além de fazer um desserviço para como a ciência é vista pela sociedade.

Para começar, existem diversos termos usados por leigos que não devem ser utilizados em muitos assuntos científicos. Por exemplo, “provar” é uma coisa que físicos não fazem. Não se “prova” o Higgs, não se obtém “provas” da expansão do universo. Se obtém evidências (eu falo sobre isso AQUI). E numa entrevista, é possível que em algum momento o entrevistado tentará falar sobre isso. Então deixe-o falar, pois isso é importante. Muito importante.

Raramente as perguntas serão respondidas com “sim” ou “não”. Por exemplo, se alguém me perguntar se existem dimensões extras ou não, eu diria algo como “até o momento não existem evidências para isso. No entanto, se alguma teoria mais exótica como a teoria de cordas for uma descrição correta do universo (coisa que não temos nenhuma ideia ainda), é muito possível que sim.” E, se houvesse tempo, eu passaria 15 minutos falando o que é teoria de cordas, e porque alguns físicos acham que ela é uma boa teoria e outros acham que é uma grande lorota. Isso é MUITO DIFERENTE de um sim ou um não. Coisas parecidas podem acontecer também em perguntas cheias de ambiguidades como “existia tempo antes do Big-Bang?”, “nada escapa de um Buraco-Negro?”, “Tudo no universo vem do Higgs?”. Para responder a essas perguntas, pra começar a pessoa terá de definir o que exatamente ele está chamando de Big-Bang, o que quer dizer com “tudo no universo”, entre outras coisas. Não espere, de um cientista sério, uma resposta sim/não.

Então, ao conversar com uma pessoa de ciências que preze por um mínimo de precisão nas informações, deixe-o falar. E se você acha que ela está divergindo muito do assunto, possivelmente ela não está. É bem provável que ela esteja sendo muito legal com você, e ao invés de dizer que sua pergunta é estúpida ou não faz sentido, ela pode estar trabalhando a sua pergunta para que possa ser apropriadamente respondida, com menos imprecisão. E todo mundo sai ganhando.

faustao

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10 Comentários leave one →
  1. 21eliane permalink
    outubro 15, 2013 2:27 pm

    Oi D-d, adorei a maneira como vc explicou de como é uma resposta correta na ciência. É exatamente isso, não tem resposta direta! mas por outro lado temos que saber conversar com o leigo, pq a ciência ficar só nos departamentos é um certo “desperdício” tb na minha visão… Até que não achei o programa tãão ruim não… falar com leigo é assim mesmo… Mas legal vc defender o lado dos cientistas.
    Abraço

    • ddimensoes permalink*
      outubro 15, 2013 2:36 pm

      Olá Eliane!
      Obrigado pelo comentário. Concordo inteiramente que cientistas tem que sair de seus casulos e dialogar com a sociedade. Parte do meu trabalho na internet vem dessa filosofia. Eu também não achei o programa ruim. O Rogério se saiu muito bem, mas poderia ter ficado um programa melhor (por exemplo, várias vezes ele tentou explicar sobre os 95% escuros do universo, mas foi sempre interrompido).
      Mas não acho que para nos comunicarmos com leigos precisamos simplificar exageradamente a coisa. Essa é a minha crítica a divulgadores famosos como o Michio Kaku (meu texto “Michio Kaku e Desinormação Numa Casca de Noz”). Também não precisamos jogar equações complicadas, e utilizarmos jargão científico o tempo todo. Mas acho que dá pra chegar num meio termo. E acho que o que o Rogério fez, apesar das interrupções, foi muito bom.

  2. Rafael permalink
    outubro 15, 2013 5:28 pm

    HAHAHAHA! Bem lembrado, foi a mesma coisa com o Gleiser neste programa. Síndrome de Faustão/Marília Gabriela.

  3. Rafael permalink
    outubro 15, 2013 5:30 pm

    Aliás, gostaria de saber o que você acha dos Mythbusters?

  4. Catarina Chagas permalink
    outubro 16, 2013 9:33 am

    Olá! Não vi ainda o programa, mas de antemão já poderia fazer alguns comentários:

    1) Um jornalista dificilmente quereria uma resposta “sim” ou “não” numa entrevista ping-pong. Pelo contrário, esse tipo de resposta é um pesadelo para um repórter numa hora dessas! A intenção sempre é que o entrevistado desenvolva o tema.

    2) Por outro lado, o tempo do programa é limitado, e por isso não dá para deixar o entrevistado falando falando falando falando… (Num texto escrito é diferente: dá para fazer uma entrevista mais completa e depois organizar e cortar as informações).

    3) Sou jornalista e tenho um cientista em casa, sempre conversamos sobre este assunto. Uma dica que sempre dou a ele é começar a resposta por aquilo que é mais fundamental para a compreensão do tema, e deixar as coisas menos fundamentais para depois (assim, se a resposta for cortada, pelo menos o mais importante já foi dito).

    A resposta tem que ser mais direta, não tem jeito. Não tem como contar toda a história da ciência antes de responder especificamente a pergunta em questão (isso não é nem alguma coisa para lutar contra, porque tem a ver com a própria construção dos programas de televisão).

    Uma sugestão prática seria: o jornalista pergunta, “tal coisa é verdade ou não?”, o cientista responde “( )sim ( )não ( )não sabemos ( )não é consenso” (marque a opção desejada, rs), e depois desenvolve o quanto der…

    • ddimensoes permalink*
      outubro 16, 2013 9:57 am

      Bom aparecer uma jornalista por aqui. Seja bem vinda!

      Poderia depois, quando tiver um tempo, assistir à entrevista, ou pelo menos partes dela, e dizer o que achou?

      • Catarina Chagas permalink
        outubro 16, 2013 10:11 am

        Claro! Farei isso!
        Abraço!

  5. Jackson permalink
    outubro 25, 2013 3:20 am

    Nem jornalistas são preparados para esse tipo de abordagem (a não ser uma minoria muito pequena de especializados em ciência), nem a massa de audiência de uma tv aberta está interessada em aprender ou saber, ainda mais se não foi educada para tanto.

    Quando se fala de ciência nesse nível, numa tv aberta, é perda de tempo.

    A BAND foi corajosa em tocar nesse assunto para um público tão carente de educação básica, poderia ter audiência “traço” (não sei), mas penso que só o espaço que ela deu ao tema já valeu a pena.

  6. claudio permalink
    novembro 1, 2013 2:47 am

    Sei que a ciência de física de partículas é complicada. Mas o professor Rosenfeld não foi muito pedagógico que digamos, existe outras formas de fazer analogias simples para entender o quer seria um Higgs de forma superficial. Porque o objetivo é passar uma informação superficial mas precisa, agora se você quere entender mesmo faça física. Mas claro que a intenção não é essa e sim dar uma declaração pedagógica e ampla. Acho que a forma como os jornalistas fazem as perguntas ajudou a confundir e desmotivas boas respostas que poderiam ser feitas de forma mas amigável. Mesmo assim valeu a tentativa debotar essa área do conhecimento na boca do dia a dia do telespectador.
    Um abraço

  7. Ademar Benévolo permalink
    março 31, 2014 8:07 pm

    Olá, desculpe estar usando sua página para isso, mas estou procurando o email do Luc Andersen. Fiquei entristecido pelo canal dele ter sido tirado do youtube. Eu era um de seus inscritos e fãs. Sou ateu também.
    Você tem algum contato dele?
    Vc pode perguntar à ele se posso ter o email dele para contato?
    Não tenho Facebook.
    Lhe agradeço antecipadamente.

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