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A Ciência Exata é Social

agosto 27, 2013
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Eu sou um cientista. Além de ser um cientista, eu amo o que faço. Mesmo. Sou do tipo que não consegue se imaginar fazendo outra coisa. Sendo mais específico, eu sou um físico. Um físico teórico. Desses que se debruçam em cima de cálculos e mais cálculos para tentar descrever algum fenômeno físico. E que gosta muito de fazer isso. E se diverte com isso.

Estando inserido ainda que há pouco tempo nesse universo, nessa coisa que chamamos de academia, tenho uma revelação que pode parecer um tanto polêmica para alguns: Ciência Exata é Social.

Antes que me atirem paus e pedras por essa blasfêmia, peço para que leiam até o final. Vejo com frequência, especialmente vindo daqueles que não são cientistas, uma idolatria exagerada dessa coisa que as vezes até colocamos uma inicial maiúscula, “Ciência”. Atribuem um status quase sobre-humano a esse empreendimento, a essa faceta importante da humanidade. Nesse texto quero tentar desconstruir essa visão. Vamos nessa?

A primeira coisa que invoco é a percepção de que ciência é um empreendimento humano. Se você não se dá conta disso, e acha que a ciência é uma coisa que existe independentemente das pessoas que a constroem, tente trabalhar a sua cabeça em cima dessa ideia. Cada “Lei” natural, cada equação, cada experiência e cada teoria foram boladas por indivíduos ou grupos de indivíduos, como uma maneira de categorizar e compreender a natureza com os nossos limitados sentidos humanos.

E como qualquer empreendimento humano, a ciência é sujeita a todas as falhas que a nossa humanidade possui. Sei que o clichê de que os erros são importantes para a construção do saber científico está na ponta da língua de muita gente, e até certo ponto, é verdade. Mas não dá pra achar que a ciência é uma máquina divina perfeita que filtra as ideias erradas deixando somente as “corretas”, uma analogia científica de uma seleção natural implacável onde só os mais aptos sobrevivem.

Indo direto ao ponto, existem diversos fatores culturais e psicológicos que afetam e muito o modo como ciência é feita. Uma nova hipótese científica, por mais correta que esteja, se for feita pela pessoa errada ou na época errada pode ser tomada como um delírio de um ignorante. Como exemplos clássicos, podemos citar o episódio onde o modelo que descreve o tamanho máximo de uma estrela do tipo anã-branca proposto por Subrahmanyan Chandrasekhar foi ridicularizado pelo famoso Arthur Eddington. Na época, Eddington era um físico famoso e respeitado, enquanto Chandrasekhar apenas um jovem físico indiano. Sua rejeição à proposta do jovem indiano fez com que seu trabalho fosse esquecido durante muito tempo. De acordo com alguns historiadores, somente após a morte de Eddington o preconceito diminuiu um pouco, e físicos reconheceram o trabalho que levou Chandrasekhar a receber o Nobel, anos mais tarde. Outro exemplo foi o famoso livro “Hundert Autoren Gegen Einstein” (cem autores contra Einstein), em que o antissemitismo forte durante a Alemanha nazista simplesmente não tolerava a possibilidade de um judeu estar tão certo. Podemos citar também Marie Curie, que se não fosse por insistência de seu marido, a comunidade científica jamais teria a reconhecido como a grande cientista que foi. E vindo um pouco mais pra perto, podemos citar César Lattes, que por pouco não ganhou o Nobel pela descoberta do múon, e que alguns historiadores atribuem isso à sua origem latino-americana.

UPDATE: Podemos citar ainda o famoso caso do experimento que determinou a carga do elétron. Os experimentos posteriores ao de Millikan não ousavam divergir muito do valor obtido por ele, ainda que os dados apontassem que o valor de Mellikan estivesse errado. Era mais fácil rejeitar os dados do que contradizer um grande nome.

Esses são exemplos famosos, mas você encontra esse tipo de coisa em qualquer departamento de qualquer universidade. Temos cientistas respeitados que causam medo nos menores ou dizendo bobagem e ganhando atenção, temos preconceitos por raça e gênero, temos modismo (áreas de pesquisa populares por pura inércia), temos muito jogo político acontecendo nos bastidores, brigas por status e poder, e tudo o mais que encontramos em órgãos públicos, empresas, famílias, times de futebol e qualquer outra aglomeração de pessoas.

E como um não-cientista deve fazer para saber em quem confiar? Tudo isso que eu disse costuma ser usado por malucos que juram que são gênios incompreendidos. Se sentir um arauto da nova física, um messias científico, é o sonho de muito engenheiro em crise de meia idade por aí. Tenho algumas ideias de como filtrar bobagem do que deve ser levado a sério, mas nenhuma receita milagrosa. Afinal, eu também tenho meu viés. Mas pretendo deixar isso pra um próximo post.

A moral da história que quero deixar neste post aqui é a seguinte. Não idolatrem a ciência como uma entidade supra-humana. Não ache que qualquer coisa “científica” seja necessariamente correta, e impossível de ser criticada. A construção disso que chamamos de ciência é sem dúvida fantástica, e devemos muito a esse empreendimento, mas devemos estar alertas ao caráter humano atrelado. Não somos robôs, máquinas de calcular totalmente objetivas. Não pense que cultura não afeta. Não pense que não existem preconceitos ou viés.

A mensagem que dedico aos meus amigos também cientistas é que, tendo consciência de que o que fazemos é muitas vezes afetados por elementos sociais, podemos tentar balancear melhor as nossas ações. Talvez não gostamos dos artigos de um determinado grupo simplesmente porque fomos ensinados a não gostar (por exemplo, o preconceito que pessoal de cordas tem com Loop Quantum Gravity). Talvez não gostamos de algum(a) pesquisador(a) porque em algum momento resolvemos implicar com ele ou ela (sei lá, talvez vimos a pessoa mastigando de boca aberta, ou com uma camiseta de uma banda ruim). Talvez estejamos levando muito a sério algum artigo, só porque foi escrito por alguém que confiamos. Esse tipo de coisa acontece, e é mais comum do que imaginamos. E tendo noção que pode acontecer, podemos tentar evitar.

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  1. Ricardo permalink
    agosto 31, 2013 2:04 am

    Concordo com o post! É importante manter sempre a mente aberta a novas idéias e opiniões divergentes, ficando esperto para estes entraves culturais, religiosos, etc ou até mesmo preconceitos escondidos no nosso inconsciente. “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará a seu tamanho original”.

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