Skip to content

Espectroscopia, Jornalismo polêmico, Judas e Jesus

abril 11, 2013
by

Há uns oito anos atrás assisti uma palestra genial de um professor, que infelizmente não lembro o nome, da Politécnica de São Paulo cujo trabalho consistia em análises espectroscópicas de tinta para obter informações de localização histórica e/ou geográfica, e com isso obter, entre outras coisas, respostas sobre autenticidade.

“Como é?” – alguém pode com toda razão não ter entendido o que o cu tem a ver com as calças, então vamos por partes.

Parte 1

– “Ó o Arco-Íris! É Deus, mamãe!”
– “É não, muleque burro, é só o espectro da luz do Sol!”

Cada tipo de átomo ou molécula possui algumas frequências de vibração características. Pra quem é familiar com equipamentos de áudio ou tem conhecimentos de acústica, estou falando de ressonâncias, não com som, mas com luz. Por exemplo, a distribuição de elétrons numa molécula de H2 faz com que a luz emitida por uma lâmpada desse gás possua uma luz bem particular.

Lâmpada de Hidrogênio

Mace Windu e seu sabre de luz de Hidrogênio

Quando a luz dessa lâmpada passa por um material difrator (um prisma de vidro, chuva ou uma rede de difração), a luz se decompõe pelo mesmo processo que a luz do sol se decompõe num arcoíris. Só que, ao contrário da luz do Sol que vem da agitação térmica na superfície da estrela, os elétrons do gás de hidrogênio só podem assumir alguns determinados níveis de energia, e portanto só emitem luz em algumas frequências.

Decomposição da luz do hidrogênio.

As cores características de algum material chamamos de “espectro”. Nesse link, você pode ver o espectro de diversos outros elementos. Notem que o espectro funciona como uma assinatura do material. Se temos uma lâmpada nas mãos, mas não sabemos do que ela é feita, podemos simplesmente observar seu espectro, consultar em alguma tabela e voilà!

Claro que existem complicadores. Uma lâmpada de hidrogênio é fácil. Mas e se eu quiser identificar o espectro de algo mais complicado, que não pode ser transformado em lâmpada? Por exemplo, um composto orgânico? Sim, é também possível (nesse site, por exemplo, basta dizer o nome do composto ou a composição química e eles te dizem o espectro). É possível também fazer com diferentes tipos de radiação eletromagnética (infravermelho, visível, raios-x…) e até mesmo bombardeando outras partículas subatômicas no material para ver a que energia do feixe de partículas o material “ressoa”.

Moral da história: Sabendo então que cada elemento ou composto possui sua assinatura, podemos, utilizando a análise do espectro de algum material, saber do que ele é feito. Essa ciência, que hoje está extremamente desenvolvida e possui inúmeras aplicações, chamamos de espectroscopia.

É verdade que podemos analisar do que um material é composto utilizando outras técnicas, por exemplo ver como esse material reage quimicamente com outros elementos. Mas isso é muitas vezes destrutivo: O material analizado, depois das reações, passa a ser outro material. Um importante aperfeiçoamento da espectroscopia com relação a outras técnicas é ser possível brincar de espectroscopia com uma amostra muito mas muito pequena de material, evitando assim, danos desnecessários.

De volta ao professor da Politécnica da USP. Em sua palestra, ele falava sobre seu trabalho. Fazendo análise espectroscópica de tintas é possível comparar composições diferentes e situá-las no tempo e no espaço. Por exemplo, suponha que até o século 16 os pintores do norte da Itália utilizavam para o pigmento branco o extrato de uma determinada planta. Suponha então que a partir do século 17, pintores passaram a utilizar para o pigmento uma rocha bem comum na região, que gerava uma tinta de melhor qualidade e bem mais barata. Finalmente, suponha que algum colecionador apresente uma pintura atribuída a um determinado pintor do fim do século 15. Como verificar sua autenticidade?

Não é possível arrancar um pedaço do quadro, tacá-lo em tubos de ensaio, queimar e ver o que sai. Aliás, possível é, mas não é recomendável. Ao invés disso, pode-se extrair uma pequena amostra da tinta a ser analisada, e por espectroscopia saber se, nesse exemplo dado, ela é feita da tal planta ou da tal rocha. Se for da rocha, a autoria atribuída ao quadro é falsa, já que na época alegada (século 15) as tintas ainda não utilizavam a rocha como pigmento.

Parte 2

– “Qual a relevância disso?”
– “Com esse estudo, mostramos que a análise espectroscópica do composto condiz com os materiais disponíveis à época em questão e…”
– “Isso tá muito chato. Diz que Jesus era um alien. As pessoas vão gostar bem mais.”

Vamos ao motivo principal deste post. Hoje me deparei com uma notícia recente, cujo título é “Estudo comprova autenticidade do controverso Evangelho de Judas”. Chamar de notícia seria generosidade demais, talvez nãotícia seja um termo mais adequado. Os 3 parágrafos desconexos que ganharam até o momento mais de mil likes no facebook não fornecem informações cruciais, como por exemplo como foi feito esse estudo, o que significa “autenticidade” (por exemplo, o que caralhos significa “veracidade das tintas”? O que seria uma tinta de mentirinha?) e muito menos qual a relevância desse estudo. Então vamos tentar responder isso.

Pedaço do Evangelho de Judas

O Evangelho de Judas é um texto apócrifo com algumas passagens polêmicas. Apesar de outros textos fazerem referência a esse evangelho, o que sugere que ele circulou por aí e possivelmente foi copiado algumas vezes, só existe uma cópia (ou original?) guardado. É então de interesse para diversos estudiosos, com ênfase para historiadores, conhecer o máximo possível desse documento.

Felizmente outros canais de notícias possuem um pouco mais de preocupação que o Terra em dizer o que está acontecendo. Encontrei, com alguns segundos de Google, uma matéria da National Geographic sobre o evangelho explicando um pouco melhor essa análise. O laboratório responsável pela análise pegou uma amostra da tinta do tal texto apócrifo e obteve seu espectro. Comparando com o espectro de outras tintas da mesma época e da mesma região a qual o texto é atribuído, pode-se dizer que a tinta do evangelho é “consistente com ingredientes de tintas conhecidas do terceiro e quarto séculos D.C.”

Na mesma matéria da National Geographic, assim como no texto sobre o Evangelho de Judas da Wikipedia, encontramos que esse estudo espectroscópico não é a primeira análise a datar o documento. Um estudo anterior fez uma datação de Carbono-14 e situou o papiro entre os anos 220 e 360 D.C. No entanto, essa datação de carbono, por ser destrutiva (você tem que arrancar um pedaço do papel), não pode obter amostra das partes que continham tinta. Então, embora o papiro seja desse período, a tinta poderia ser bem mais nova.

O estudo que o portal Terra toscamente apresenta é importante pois confirma que a tinta foi de fato produzida na mesma época que o papiro, corroborando a data por volta do ano 300. É aí que entra a “autenticidade”. Que de fato, o texto não foi escrito tempos depois num papel velho para parecer original.

De quebra, a análise espectroscópica revela que na época a tinta utilizada estava numa fase de transição, passando de uma tinta a base de estratos animais e vegetais para tintas ferrogálicas, que foram a forma predominante de escrita na Europa medieval. E isso, o Terra nem mencionou.

Parte 3

“E Jesus? É ou não é cafetão da Maria Madalena e um ciborgue alienígena?”

O ponto importante aqui é que a “autenticidade” não diz respeito a se a história contada é verdadeira ou não. Uma coisa sabemos, e os teólogos e historiadores também já sabem (de fato, foram eles que nos contaram): Não foi Judas quem escreveu. Agora, se alguém escreveu o texto baseado em algo que realmente aconteceu ou não, pelas análises não temos como saber.

Alguns comentários selecionados. Notícia sem sentido, comentários mais sem sentido ainda.

Alguns comentários selecionados. Notícia sem sentido, comentários mais sem sentido ainda.

Resumão:

  • Espectroscopia é uma técnica linda que além de permitir estudar propriedades fundamentais da matéria, possibilita diversas aplicações.
  • Entre as aplicações, cada uma mais fascinante que a outra, é possível extrair informações históricas de obras de arte, documentos e objetos utilizando espectroscopia, sem precisar quebrar, destruir ou tacar fogo em nada!
  • Espectroscopia não provou que Jesus era um pilantra safado, nem que era um cara legal e honesto. Simplesmente não disse nada a respeito disso.
One Comment leave one →
  1. abril 11, 2013 4:41 pm

    Excelente texto! Muito informativo e bem elaborado.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: