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Os problemas da divulgação científica

setembro 12, 2012
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Olá, caríssimos leitores e leitoras! D-Dimensões entrando com vocês nesse universo fascinante e complicado, o da divulgação científica.

O Thiago do Physics Act acabou de publicar um excelente texto sobre o assunto. Gostaria de comentar alguns pontos, mas primeiro, vão lá, leiam tudo, compartilhem, e depois voltem aqui. Eu espero.

Devo dizer que eu concordo inteiramente com o Thiago. A ciência já é fascinante o suficiente sem precisar de incluir exageros como “a ciência prova que universos paralelos existem” ou “buracos de minhoca são túneis para outros universos”. Também acho que, ainda que com boas intenções, esses exageros distorcem a imagem de como o saber científico é construído.

Com um texto tão completo é realmente difícil acrescentar algo, mas lá pelo meio houveram algumas coisas que eu gostaria de comentar. Ele diz

Assim, deixo ao leitor leigo algumas dicas que você deve tomar ao assistir esses documentários e ler as matérias de revistas e jornais:

1 – Cientistas divulgam seus trabalhos acadêmicos em periódicos sérios como a NATURE, SCIENCE e etc, não em livros de divulgação científica, documentários ou jornais.

Correto. No entanto eu adicionaria que existe confusão, entre o público leigo mesmo, entre um trabalho acadêmico que passou pelo crivo de cientistas e um trabalho “correto”. Explico: se um trabalho científico está em um periódico reconhecido, significa que os revisores consideraram que o método adotado no trabalho é coerente. Não significa que tudo que está ali no artigo está necessariamente correto. E nem é para estar.

Nesse ponto eu devo estar embaralhando a cabeça de muita gente. “Como assim?” podem perguntar, “achei que um artigo científico era justamente um que tivesse sido minuciosamente avaliado!” Sim e não. Claro que você não vai conseguir ter um artigo que fala que a força gravitacional é causada por gnomos invisíveis aceito num periódico reconhecido. Mas as vezes num trabalho sério alguma suposição que você fez, ou alguma equação que você utilizou, ou simplesmente o experimento que você realizou, estava errado.

Onde quero chegar? A existência de um trabalho científico que calcule como produzir buracos de minhoca no LHC, que mostre que comer batata baroa parece estar ligado com tiques nervosos ou que diga que ouvir Bach ajuda na concentração não significa que essas coisas sejam verdade absoluta. Só significa que a metodologia utilizada pelos pesquisadores foi coerente.

Ciência é feita de erros e acertos. Os erros são tão importantes quanto os acertos.

2 – Muito provavelmente os conceitos que você verá na divulgação científica foram um pouco distorcidos para facilitar seu entendimento, portanto procure livros que tratem do assunto de forma mais técnica e caso tenha dificuldade em compreender mande e-mail para algum cientista que trabalhe na área!

Eu discordo da parte final desse ponto (mandar e-mail para um especialista). Primeiro, muitos não se interessam ou não ligam para alfabetização científica. Eu diria que é alto o número de cientistas atuantes em alguma área que jamais dedicaria seu tempo para responder uma pergunta, na opinião deles, idiota. Segundo, ainda que ele decida responder, sabe-se lá se o sujeito vai saber comunicar direito? Passar de maneira clara conceitos que envolvem toda uma bagagem técnica não é tarefa simples. Para explicar o Higgs a um leigo não adiantaria muito falar que “o Higgs é um escalar de Lorentz e dubleto do SU(2)  e interage com férmions através de acoplamentos Yukawa e adquire um vev e quebra a simetria de gauge para um subgrupo U(1)”.

Por outro lado, existem diversas pessoas, cientistas e não cientistas, que são especialistas exatamente em comunicar ciência. E cada vez mais existem comunicadores se aprofundando seriamente nos detalhes técnicos, para poder transmitir de maneira completa e ao mesmo tempo simples.

Não estou dizendo que o contato com cientistas deve ser desencorajado. Muito pelo contrário, se você conhece algum(a) cientista, pegue no pé dele(a). Mas não negligencie aqueles que estão aí justamente para fazer esse link entre o mundo acadêmico e o não-acadêmico, sejam eles cientistas (atuantes ou não) e não-cientistas.

3 – Dê prioridade para livros, principalmente desses autores: Richard Feynman, Carl Sagan, Brian Greene.

Esses são de fato excelentes, mas não concordo com a “prioridade”. Existem diversos outros por aí que fazem excelente trabalho, mas são menos conhecidos. E hoje em dia existe muito material de excelente qualidade na internet. Por exemplo, se alguém me perguntasse sobre o que está acontecendo em astronomia, eu não recomendaria nenhum livro, mas diria para visitar sempre que puder o Bad Astronomy. E lembre-se que na ilusão de que um livro é mais confiável pessoas buscando aprender sobre física quântica podem acabar com uma porcaria do Amit Goswami nas mãos.

4 – As únicas duas séries que conheço que até hoje cumpriram um excelente papel foram “Cosmos” e “O Universo Mecânico”, as outras se mostraram completamente descartáveis frente a essas duas.

Ah, qual é, descartáveis não. A série Universo é muito boa, exceto um ou outro episódio meio facepalm. Até aquela série do Fantástico, Poeira das Estrelas, não foi “completamente descartável”. Na dúvida, faça como muitos já fazem. Perguntem. E Cosmos é excelente, mas tem muita gente que simplesmente dorme. Documentários dos anos 80 tem esse poder místico de fazer dormir, por melhores que sejam.

Apesar disso, eu tenho uma dica pessoal: confiem no Michio Kaku assim como vocês confiariam num político ou num advogado.

5 – SEMPRE cheque as fontes. Artigo sem fonte é artigo sem credibilidade NENHUMA. (sempre repare no tanto de citações e fontes que usamos nos hiperlinks e/ou ao final dos textos) 

Façam isso. Simplesmente façam. SEMPRE! Os principais jornais online (Folha, Terra e cia) simplesmente abriram mão disso, e repetem a torto de a direito o velho “cientistas provam que…”. As vezes eles nem mesmo dão nome aos cientistas. Cientistas tem nome, áreas de atuação, e institutos de pesquisa associados. Não são uma massa disforme sem identidade que se alimentam de dados científicos e cagam artigo (bom, alguns chegam perto disso… mas não é esse o ponto!).

Era só isso que eu queria comentar. Ainda tem mais dicas lá, mas eu não tenho mais o que acrescentar (Até porque uma delas é recomendando este blog. Eu vou reclamar do que?).

Se você tiver comentários, dúvidas ou sugestões sobre divulgação científica, agradecemos a participação nos comentários!

4 Comentários leave one →
  1. setembro 12, 2012 10:11 pm

    Eu adoro esse dinamismo. Você colocou contra-pontos no que afirmei que são completamente válidos.

    Parabéns pelo texto!

  2. outubro 12, 2012 2:04 am

    Excelente texto! Gostei das dicas. Não devemos minimizar o efeito de um bom livro de divulgação que, embora não possa te tornar perito naquele assunto, é de extrema valia no objetivo de motivar-nos a fazer ciência.

  3. outubro 28, 2012 12:07 am

    Gostei muito, principalmente da referência ao Michio Kaku…rsrsr
    Realmente, é um risco que se corre na divulgação científica, e aqui eu pressuponho que todos são bem-intencionados (à excessão da teoria das cordas, claro…). Mas eu acho interessante que se arrisque em certos pontos…tudo bem que buracos de minhoca ainda são ficção científica (e das boas), mas, por exemplo, tunelamentos, entrelaçamentos e saltos quânticos estão bem aí a provocar nossa imaginação.
    Então, com todo respeito, acredito que a divulgação científica deva sempre despertar algo mais na curiosidade dos leitores, dentro de uma honestidade de propósitos, e de uma busca de conhecimento, e reconhecimento dos próprios erros.
    Se me permite a referência, no meu blog “questões cosmológicas”, ao mesmo tempo que carrego informações sobre física, matemática, filosofia, que considero relevantes, apresento também um pouco das minhas idéias, leigas mas objetos de discussão e reflexão, como toda boa ciência.
    Abraço

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